Entrevista: Perspectivas do Setor Logístico no Brasil frente à COVID -19

A pandemia da COVID-19 estabeleceu um “Novo Normal” em nossas vidas e em todos os âmbitos da sociedade. Profissionais de diversas áreas tem se reinventado para encarar este novo desafio e também para se manter atualizados diante das novas formas de trabalho e de convivência em sociedade.

Diante disso, a Faculdade Santa Terezinha convidou o Professor Roberto Reis para uma conversa sobre como o setor Logístico tem trabalhado para atenuar os impactos sociais e econômicos da pandemia, e quais são as perspectivas para a profissão no pós-pandemia.

O setor logístico é diretamente ligado ao consumo, e neste período houve um crescimento das compras via internet. Como pequenas empresas tem se organizado para readequação de suas atividades?

Na verdade, entrevistar professor deve ser diferente né?! Professor gosta de perguntas. Vou responder essa primeira pergunta fazendo uma pontuação pertinente, porque a maioria das pessoas confunde a pequena empresa com o mercadinho da rua, com a padaria do bairro, enfim, com as microempresas, e na verdade a pequena empresa não é tão “pequena” assim em termos financeiros, veja só: Para classificar uma empresa como pequena, esta deve ter um faturamento anual de até R$4,8 milhões e com um número de funcionários que deve variar de 10 a 49 funcionários.

A crise causada pela pandemia traz sim muitas dificuldades e desespero para patrões e empregados. Não existe uma “receita de bolo”, pois cada negócio possui particularidades diferentes, e a estratégia que funciona para uns não funciona para outros. Porém, como eu também sou professor da área de empreendedorismo e finanças, compactuo com algumas recomendações para o momento, como manter uma comunicação clara com os clientes, negociar prazos maiores com fornecedores e parceiros, investir em técnicas de vendas mais eficientes e humanizadas e não descuidar da higiene e precauções sanitárias para funcionários e clientes, porque isso também é fator de relevância nesse período.

A prevenção à COVID-19 é outro fator importante e bastante abordado atualmente, e que deve ter um impacto também neste setor, quando falamos em higienização no manuseio de produtos. Quais as principais medidas que podem ou estão sendo adotadas pelas organizações (independentemente do seu porte)?

Eu vou falar aqui algo que menciono muito nas aulas e algo que eu acredito e confio demais, que é no treinamento. É preciso treinar e sensibilizar as pessoas para usarem corretamente os seus EPI’s, como palestras, apresentação e compartilhamento de vídeos que tratem da temática, entre outras estratégias. Sem o básico é difícil fazer com que outros processos relacionados à higiene e cuidados sanitários tenham eficiência. Vou contar um caso aqui para vocês: outro dia eu precisei ir fazer compras, e para evitar sair de casa sem necessidade, eu fico esperando ir acabando tudo. Então fiz um roteiro de todos os lugares que eu precisaria ir, e um deles foi a padaria. Chegando lá, gostei de ver a atendente de máscara, touca e luvas, e me senti mais seguro, pedi um bolo de abacaxi que o pessoal lá em casa adora, porém minha sensação de segurança acabou quando a atendente baixou a máscara, e levou as mãos ao rosto para coçar o nariz que parecia estar irritado. Nesse momento, eu fiquei sem graça, branco que nem uma folha de papel. Você entende? O treinamento e a sensibilização são as melhores formas de fazer com que os outros processos relacionados ao manuseio correto de produtos e objetos possam estar dentro das normas de segurança sanitária.

Segundo o Ministro da Infraestrutura, Tarcísio Freitas, a logística do país está e vai continuar funcionando para garantir a cadeia de abastecimento. Sabendo das dificuldades da logística no Brasil, qual ou quais questões tem chamado a sua atenção?

– Como mencionado, existe a garantia de fornecimento e fluxos na cadeia de abastecimento. Isso significa que: produtos não vão faltar, porém diante disso, um fato que me deixa curioso é o efeito chamado de Panic Buying, isto é, o processo de decisão de compra motivado pelo medo e pela tensão que levam uma parte da população a comprar e acumular itens em grandes quantidades e que pode justamente reduzir a oferta de lojas e supermercados, não porque está faltando abastecimento, mas porque alguns consumidores exageram nas quantidades compradas, e isto gera um efeito negativo para todo o público consumidor, visto que essa demanda por produtos como máscaras, luvas e álcool em gel, por exemplo, já desencadeam a elevação drástica nos preços desses itens. Sabemos que a maioria das pessoas não possui recursos suficientes para praticar essa compra acumulativa por medo, tendo em vista ainda a crise financeira e política que atravessamos, mas as atitudes de alguns impactam na dinâmica que envolve a todos. Cuidar da saúde mental e emocional, evitar sair sem necessidade e constantemente (para aqueles que podem ficar em casa), fazer os procedimentos corretos de higiene e aprender a usar adequadamente os EPI’s, são gestos nobres para si e para os outros, manter o pensamento positivo e comprar apenas o necessário são atitudes e posturas que em larga escala vão beneficiar a todos. Somos mais fortes se cada um, dentro das suas possibilidades, fizer a sua parte. Tudo isso, se Deus quiser, vai passar! Eu acredito muito! Vamos para a próxima pergunta.

O setor da aviação civil é um dos mais impactados pela pandemia. Como as empresas aéreas tem se planejado durante esse período?

Nossa, nem me fale! Quem me conhece sabe da minha paixão por aviões, voar é algo incrível e uma conquista da humanidade. Sempre falo nas aulas que um dos brasileiros mais queridos por mim é Alberto Santos Dumont (os americanos Wright não são os verdadeiros inventores do avião para mim). Mas é verdade! A pandemia colocou em risco o setor de aviação civil no Brasil, como também a própria EMBRAER, ou seja, esta pane mundial trouxe cancelamentos de voos em massa, e isso atingiu diretamente os fabricantes de aviões, como a Boeing e a própria EMBRAER.

A Boeing está em crise e dependendo da ajuda do atual governo americano, e isso, em termos de negócios e cadeia de suprimentos, arrasta junto uma série de fornecedores e parceiros, como a EMBRAER. Tendo em vista este momento, várias iniciativas de apoio ao setor foram implementadas pela Secretaria Nacional de Aviação Civil.

Então o que foi pensado diante dessa circunstância: sabemos que a maior parte da carga aérea é transportada no espaço dedicado ao transporte de passageiros, porém sabemos que com os cancelamentos de voos e redução de até 91% das operações, as aeronaves ficaram praticamente improdutivas. Além disso foi observado que somente as aeronaves cargueiras não poderiam suprir a demanda mundial. Mediante isso, a ANAC promoveu alterações em sua regulamentação e publicou a Decisão nº 71, de 15 de abril de 2020, deliberando diretrizes para permitir em caráter excepcional o transporte de carga nos compartimentos de passageiros durante a pandemia.

Para finalizar, como o senhor vê o setor durante e no pós-pandemia, e como o profissional da logística deve agir para se manter atualizado e ganhar espaço no mercado de trabalho?

Vou usar este espaço de resposta para filosofar um pouco, pode? A pandemia é um efeito global, todos estamos passando por ela, uns sentindo os efeitos mais que outros, porque isso é verdade. Mas, na medida do possível, principalmente para aqueles que possuem recursos, o esperado é que, após esta pandemia, possam sair com novas habilidades e novas atitudes profissionais.

Sempre falo constantemente na sala de aula: alô acadêmico de Logística! Estude sistemas de informações gerenciais, conheça sobre MRP’s, ERP, ECR, Minitab e outros softwares da área.

O profissional de Logística é uma figura estratégica e multidisciplinar. Sim gente, multidisciplinar! Por que tem que entender um pouco de tudo, como Marketing, Finanças e Custos, Produção, Sistemas de Informação, e até mesmo Geografia e Economia, sem falar de comércio exterior! A formação do tecnólogo em Logística é bastante arrojada. Então a dica para o momento é: se não consegue fazer muito, comece pelo simples! Invista num curso de EXCEL e num curso de Inglês/Espanhol e você já estará com boas qualificações extras. Existem cursos on-line gratuitos e canais no YouTube com excelente conteúdo. Mas pessoal, tem um detalhezinho: é preciso querer, viu?

1 comentário em “Entrevista: Perspectivas do Setor Logístico no Brasil frente à COVID -19

  1. Almir Rogerio Responder

    Professor Roberto sou seu fã sempre com palavras maravilhosas de incentivo e um profissional competentíssimo

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